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Angeli, Laerte, Glauco e Adão
— assim como os Três Mosqueteiros, Los3Amigos são, na verdade,
quatro. A revista SEXY reuniu os implacáveis Angel Villa,
Laertón e Adôn para uma conversa em que rolou humor, política,
sexo, o misticismo do Glauquito e, é claro, muita sacanagem.
Veja a transcrição:
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Eles
são uma espécie de Rolling Stones brasileiros do
humor. Se juntar o tempo que se conhecem — só Angeli
e Laerte dá uns 25 anos — e os projetos que fizeram,
fazem e farão em conjunto já justificaria a comparação.
Também não são muito diferentes dos personagens
que criaram inspirados na comédia "Três Amigos",
dirigida por John Landis em 86, mesmo ano em que
surgiu o trio brasileiro. Já sabíamos que não iria
ser fácil reuní-los. Primeiro porque eles vivem
ocupados com tiras para jornal (os quatro trabalham
para a "Folha de S. Paulo"), colaborações
para revistas, publicidade, roteiros para TV e outra
série de atividades . Segundo porque os amigos são
pirados mesmo. Tente marcar encontro com Angeli,
Laerte, Glauco e Adão. Sair, até sai, mas nunca
será, assim, de primeira. Você também nunca terá
os quatro juntos. Reza a lenda que trata-se de medida
de segurança, ou charme, algo assim. A verdade é
que conseguimos sentar pelo menos três dos quatro
ao redor de uma mesa: Angel Villa, Laertón e Adón.
Glauquito, o mais místico, estava no Acre, onde
seguia rigorosamente os preceitos do Santo Daime,
do qual é fervoroso adepto há anos. Tudo bem, eles
são Los 3 mesmo…A superelétrica ( ou hiperativa?)
Alicinha Cavalcanti acompanhada da elegante Francisca
Botelho — uma artista que desenha jóias maravilhosas,
estava presenta para nos auxiliar na entrevista.
Ledo engano se achamos que Alicinha se limitaria
ao papel de convidada. Em empatia automática com
Los Amigos, ela simplesmente dominou a mesa e roubou
a cena. Não houve outro jeito senão ajudá-la a entrevistá-los.
¡Hay, Caramba!
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Palmério Dória: Angeli , todo mundo sabe que você
fez o Bob Cuspe inspirado no Gastão Comunicador, do
Jaguar. Vocês chupam sempre?
Angeli
: Bom, na verdade eu não me baseei só no Gastão, o
Vomitador .Me baseei em vários personagens, pessoas,
situações e tal, mas o Gastão comunicador é uma fonte
de inspiração. Aliás, o Jaguar é uma fonte de inspiração.
Eu sempre, desde moleque, me baseei muito no trabalho
do Jaguar. Tem momentos em que estou desenhando e
acho que é um desenho do Jaguar que estou fazendo.
E o Boby Cuspe tem uma parte do Gastão, mas vai além
dele.
Laerte: O Jaguar é só um dos que eu chupei.
AN: O Laerte chupou pra caralho. Ele chupa sempre.
Adão: Eu chupo, por que senão o trabalho não sai legal.
Alicinha
Cavalcante: Vocês criam juntos, não é uma coisa individual,
cada um aparece lá com sua charge. Explica isso.
La:
Fazemos pelo sistema antigo, a gente se reúne, aí
pinta uma idéia e a gente produz.
A.C.:
E cada um assina. Mas vocês fazem todo o trabalho
em conjunto?
LA:
Não adianta você querer fazer um desenho se o Glauco
não pode fazer um desenho.
An: Ele nunca pode. (risos)
Ad: O Laerte faz pra ele. O Laerte faz os desenhos
com os bonecos do Glauco, melhor que o Glauco.
P.D.:
Não é à toa que o Glauco não está aqui…
An: Vamos ser justos com o Glauco. O "Los 3 Amigos" é feito a
seis, oito mãos. O Glauco sempre foi um cara não tão presente quanto
os outros. O Glauco tem uma vida muito lotada em volta da opção dele
pelo Daime. Isso dificulta um pouco o trânsito dele dentro dos "Los
3 Amigos".
P.D.: Ele não tentou corromper
vocês, não?
Ad: Só quando está sozinho com um de nós. Tipo, se ele vem falar e
estou eu e o Angeli, ele não fala sobre o Daime. Tem que ser
individual. Ele pega no elevador e fala, "esse ano a gente fez um
trabalho lindo..."
A.C.:
Aí ele vem lá e manda putaria na "Dona Marta"…
Entendi. É um antagonismo. A não ser que aquilo
lá no Acre seja ...
La: Ele diz que não é incompatível.
Ad : É, mas ele fica subindo pelas paredes…
P.D.:
Mas as moças aqui na mesa estão em uma onda de nostalgia
da Rê Bordosa.
A.C.: Você encheu o saco da Rê Bordosa?
An: Na verdade quando
eu matei a Rê Bordosa, Eu estava de saco cheio .Era um personagem muito
pesado para mim, porque onde eu ia tinha que responder pelo personagem,
eu tinha que explicar o personagem. Aconteciam coisas estranhas, pessoas
que não tinham uma vida próxima da Rê Bordosa e falavam assim:
"eu sou a Rê Bordosa". Eu via que aquilo era uma mentira, então...
A.C.:
Sim, mas você se livrou disto?
An: Não, não me
livrei, por incrível que pareça, porque até hoje tem gente que coloca
a cabeça fora do ônibus na Teodoro Sampaio e fala: "filho da
puta! você matou a Rê Bordosa!" Até hoje… |
P.D.:
Adão, na história da Aline, do Oto e do Pedro, tem
muito de autobiografia? Você gosta de uma surubinha
destas?
Ad:
A única vez que eu pratiquei sexo a três, foi com
um amigo meu (risos). Não, não, não. Era eu, uma japonesa
e um amigo que chamava Oto. Mas eu não consegui transar.
A gente ficava alí e eu olhava pro Oto parecido com
o Woody Allen. Eu via a fuça dele e ficava rindo.
A.C.:
Tem algum personagem que vocês têm inveja de não ter
criado?
An: Ah! Eu gostaria
muito de ter criado o Amigo da Onça, que é um personagem que paira
sobre o meu trabalho.
A.C.:
Que coisa modesta! E você, Adão?
Ad:
Não sei. Eu gostaria de ter matado o Garfield, primeira
coisa...
A.C.:
Mas existe algum que você ache muito bacana e gostaria
de ter feito?
Ad: Daqui a pouco eu vou lembrar de alguma coisa,
aí vocês juntem no texto.
A.C.:
Laerte?
La:
Um dos que eu acho mais bacana é o Calvin, mas eu
não sei se gostaria de ter criado, porque isso envolveria
fazer as histórias dele também, e eu não sei, acho
muito típico do cara, do Bill Watterson eu não me
sinto a altura do Bill Watterson.
P.D.:
Por falar em Amigo da Onça, quem é o grande amigo
da onça no país hoje?
Ad: Puta, tem um milhão!
P.D.
: Há preferências?
An: O amigo da onça é o Maluf, no caso. Ele pegou o Pitta e o colocou
nessa daí.
La: Eu acho que o Maluf é um grande amigo da onça, mas o FHC também
está conseguindo ser.
A.C.:
Onde é que você busca a inspiração para os Piratas
do Tietê?
La: Eu gosto muito de
misturar. Esse negócio, um barato de fantasia — fadas , palhaços,
piratas, gente com cabeça de bicho — com um cenário, digamos, meio
realista. Não chega a ser uma necessidade de ter um troço super
original, é mais uma... Eu gosto de mexer com os estereótipos, as
figuras...
A.C.:
Mas tem uma conotação misturada com pirataria como
teria de fada?
La: Tem, sim. Por que a gente vive no meio de uma grande pirataria da
sociedade brasileira, da economia brasileira.
A.C.:
Tem um lado todo sério aí?
La: É, mas normalmente esse processo vai apresentando
surpresas no decorrer do tempo, e essa foi uma que
apareceu logo no início. Quer dizer, uma sintonia
entre os personagens e a coisa real mesmo. Todo
mundo pirateia. O fato de os caras piratearem, roubarem,
saquearem e depois venderem, traficarem escravo
e tal, parece que é uma linguagem muito conhecida
no Brasil, não surpreende ninguém.
A.C.:
E a coisa do Tietê para caracterizar São Paulo,
para ser uma coisa paulista, vocês são paulistas,
os três?
Todos:
Não, o Adão é gaúcho.
Ad: Gaúcho do interior do Rio Grande do Sul.
J.S.:
O trabalho do Laerte tem uma característica muito
paulistana. Você sempre quis fazer tipo uma crônica
da cidade?
La:
Não, eu preferia Barcelona, mas é que eu nasci aqui.
Eu não gosto de São Paulo, odeio São Paulo, acho
uma porcaria de cidade. Assim que eu puder, me mando.
A.C.:
Você não gosta mesmo de São Paulo?
Ad:
São Paulo é uma coisa meio estranha. Fico no apartamento
o dia inteiro, não tenho que pegar trânsito, mas
o cara que falar que São Paulo é legal deve ser
meio imbecil. É um cara que acha legal a administração
do Maluf e do Pitta.
An: Ô Adão, você esta misturando aí. Má administração
toda cidade está tendo.
P.D.:
Laerte, você tem um gato e uma gata que gostam de
sacanagem, umas gracinhas… Quais são suas verdadeiras
relações com os gatos? Você é a favor do sexo animal?
La:
Sou, tanto é que não vou castrar meu gato.
J.S..:
Angeli , me lembro que numa certa época, você chegou
a tornar pública uma declaração de que não faria
mais charge política. Anos depois você se transformou
em um dos caras que mais publicou charge na página
2 da "Folha", que é predominantemente
política. Por que a decisão na época e o que fez
você voltar à charge política?
An:
Bom! Por que na época, 1982, quando eu deixei de
fazer, o presidente era o Figueiredo. Todas as charges
políticas tinham uma conotação de charge de guerrilha,
e eu acho que a charge estava ficando bastante burra.
Ela estava ficando cheia de muletas e de fórmulas
prontas. Todo mundo usava as mesmas fórmulas. Eu
achei que aquilo estava emburrecendo o humor, emburrecendo
os humoristas e tudo mais. Talvez tenha sido um
pouco violento na hora de fazer esse ataque, mas
eu não via futuro na charge. Ela estava se transformando
em simples caricatura e isso não me agradava. Muitas
vezes achei que a charge estava servindo apenas
para os "chargeáveis". O Delfim Neto abria
o jornal e falava assim: "olha eu aqui, tão
gordo".
Ad: O Delfim Neto tem na casa dele uma galeria de
charges.
An: Aí fui fazer quadrinhos, humor de comportamento
e tal. O Brasil mudou, a situação política mudou.
A gente ainda tem seqüelas, mas as autoridades são
outras. Mesmo aquelas que vieram da ditadura têm
que se comportar de uma outra forma. Então, quando
a "Folha" me convidou novamente — por
que aquele espaço da charge na página 2 fui eu quem
inaugurou, antes era um espaço de fotos de agências
de notícias, uma charge americana e tal. Eu oficializei
aquele espaço, e quando retomei, pensei: "vou
desdizer tudo o que disse".
J.S.:
Quando é que você retomou?
An: Em 93. Fiz de 73
a 83. Depois fiquei dez anos fora e voltei a fazer. Quando retornei,
retomei alguns desafios que havia criado. Uma coisa que sempre me
encantou no humor, principalmente nos anos cinqüenta, do Carlos Estevão
do Amigo da Onça, era o cidadão comum sendo a figura principal.
Comecei a reparar que os chargistas tinham esquecido isso. Eles estavam
fazendo coisas sobre o humor de gabinete. Pensei, "vou retomar isso
e vou colocar tudo que aprendi no humor de comportamento fazendo
quadrinhos na charge". Agora, é uma armadilha essa situação,
porque o tempo, o relógio batendo, o que o jornal te propõe como notícia,
com tudo isso você acaba caindo no humor de gabinete mesmo. Mas é uma
coisa que eu me policio para não fazer só isso. Então, vira e mexe,
estou colocando a opinião do cidadão comum, estou colocando fórmulas
de charges que até então se usava só em quadrinhos.
P.D.: Você subdivide o
desenho com muita frequência?
An: Exatamente. Eu estou dando opinião muito pessoal. Em alguns casos
me coloco na charges conversando com o Maluf. Tenho charge conversando
com o Maluf, conversando com o Antonio Carlos Magalhães. Aí dou minha
opinião e ele rebate com a dele. Agora, nem sempre é possível fazer
isso. Jornal é ingrato — aquele relógio ali em cima batendo… você
fala, "meu Deus! vou apelar porque hoje a gente tem que
fechar", mas é uma regra que me imponho de não ficar só nessa, não
ficar só fazendo caricatura. Já que não sou um caricaturista, não
sou um Caruso, cujo centro do trabalho é a caricatura. Pego mais o
comportamento do político do que até a própria cara dele.
P.D.:
Você conversaria com o Maluf mesmo?
An: Não, não tenho
a menor vontade.
P.D.: Não, não por
uma questão de vontade…
>An: Não, não conversaria.
A.C.: Laerte, na revista
dos Piratas você fazia longas histórias com caráter
de crônica. Você continua fazendo isso, ou parou?
La: Parei de fazer longas histórias por uma questão
de falta de espaço. Em tiras não dá pra fazer. É
muito difícil, por que tem muito leitor que pega
no meio da semana. Espaços para histórias como "Modest
Blaise", como "Tarzan", histórias
continuadas assim não existem mais no jornalismo
moderno. O tipo de leitor é outro, ele zapeia, ele
passa para a internet, passa para outros jornais,
ele está sempre assim.
A.C.: Tem previsão
de sair uma revista?
An: Temos um roteiraço
inédito para um álbum de Los 3 Amigos que é uma
coisa próxima dos bons momentos do Dias Gomes. É
aquela coisa de montar uma cidade onde até o jornaleiro
tem personalidade...
A gente tem afiado esse esboço, está praticamente
montado. Agora a gente trabalha muito...
A.C.: Quem é que trabalha
mais, quem é que fica ali mais atento, qual é o
horário de trabalho?
An: Acho que eu trabalho
mais.
Ad: Não, o Angeli chora mais. O Laerte acho que
trabalha muito também, mas o Angeli adora chorar.
Você liga e ele adora ficar chorando.
A.C.: Vocês trabalham
durante o dia?
An: Eu, por obrigação,
por causa do jornal. Mas gosto mesmo é de trabalhar
à noite. À noite é quando me preparo pro dia seguinte,
armo as idéias.

P.D.:
Mas a pergunta que está no ar desde a entrevista
do Jaguar é: Quem comeu o Laerte?
Ad:
O Laerte não dá pra ninguém, não. O Laerte é um
cara que esta acima disso.
A.C.
: Deixa o Laerte responder isto.
An: (Para o Laerte) Você lembra que estava eu, você, o Ziraldo, o
Jaguar e tinha mais alguém, o Ailson, não sei… Perguntaram a maior
vergonha de cada um, aí cada um contou. O Laerte soltou uma bomba atômica
que deixou o Jaguar e o Ziraldo encucados durante um mês.
La: Essa história é privada, e foi contada numa roda de amigos, num
bar. |
A.C.:
Mas se tornou pública, querido. Todo mundo já sabe.
An:
Eu acho que, para manter o charme do Laerte, isso
tem que permanecer um mistério. Se ele deu, o problema
é dele.
A.C.:
Que amigo você tem, hem?! "Tem que ficar no mistério,
se ele deu o problema é dele".
P.D.: Aliás ,por falar em amigo, dizem que você é
o mentor de Los 3 Amigos, ao que você respondeu certa
vez que era compatível com a falta de opção. Que história
é esta?
An:
Não sei! Eu sou o mentor? Não sou. Eu acho que eu
aperto o botão de "start", mas, aí, divide-se
a responsabilidade....
Ad: Mas fui eu quem deu o sangue novo para...
An: Não precisa falar que tem hemorróidas não.(Risos)
La: Bom, hemorróidas eu tenho, eu posso falar…
P.D.:
Mas existe aquela histórinha do velho cartunista...
An:
Sabe o que é? Tem uma brincadeira dentro do Los 3
Amigos em que cada um faz um papel. Eu sou o cafajeste
latino e o Glauco é o atrapalhado, o viajante, o cara
que atrapalha os planos de assalto e faz tudo errado,
não aparece no momento do assalto porque esqueceu.
Já o Laerte é o cara que tem algumas dúvidas sobre
a sexualidade, é isso, né!? (Risos). Então, dentro
do Los 3 Amigos, ele já foi dançarina de cabaré… Enquanto
os Los 3 Amigos estavam colocando mulher amarrada
em trilho de trem, estuprando as mulheres, o Laerte
ia levar um papo antes do trem chegar, "Não,
e tal, você gosta de música romântica e tal".
Ele é um cara mais sensível. O Laerte, entre nós,
é o cara mais intelectual, o que mais sabe das coisas.
Então, está propenso a estas coisas, né!? (Risos).
P.D.:
O que me impressiona são duas coisa fantásticas no
Laerte: ele conseguiu tornar engraçado a "Gazeta
Mercantil" e o caderno de classificados da "Folha",
isso é magnifico!
J.S.: Como o Adão se tornou o quarto amigo?
An: Quando ele veio morar em São Paulo, estava na
merda, aquela coisa e tal... A gente convidou o Adão
para integrar os Los 3 Amigos. Agora, como personagem,
acho que o personagem do Adão ainda não integrou completamente.
Ele não mostrou exatamente o que ele é.
La: É porque o personagem do Adão é bonzinho, angelical.
Ad: É difícil. Os três já estavam lá fazendo um trabalho
e então eu entro…
An: Agora tem uma coisa, já me disseram que depois
da entrada do Adão, os Los 3 Amigos ficou com um certo
jeito gay. (risos)
A.C.:
Mas é característica gaúcha, "te rodeio tu de
baja".
Acho que é difícil você entrar numa coisa que já está
formada. Você entrar e formar um personagem muito
rapidamente...
J.S.: Existe uma certa influência de Los 3 Amigos,
tanto do Angeli, do Laerte e do Glauco no teu trabalho?
Ad:
Tem! Também tem uma influência do meu trabalho no
trabalho deles, mas eles não vão falar isso, claro!
(risos)
La: Eu admito, eu admito.
An: Mas tem essa coisa da personalidade de cada personagem.
Agora nem tanto, mas teve um tempo em que a gente
direcionava histórias para cada um deles. Tinha épocas
que eu passava como a estrela principal da história,
depois entrava o Laerte. Agora estamos trabalhando
mais o bloco dos personagens.
P.D.:
E a sua ida para o caderno teen da "Folha"?
An:
Os Los 3 Amigos surgiu na minha revista, "Chiclete
com Banana". Aí tiveram a idéia de fazer uma
página com quadrinhos no caderno de variedades da
"Folha" de segunda-feira e colocaram um
monte de coisas lá. Coisas de cara que curte quadrinhos
à distância, né! "Ah! Vamos colocar um quadrinho
tradicional", que era o "Crazy Cat".
Nada dava certo. Não emplacou por que não eram coisas
que falavam ao pau. Aí veio a crise do papel e eles
começaram a cortar páginas. Sobrou os Los 3 Amigos,
que foi para o "FolhaTeen". Agora, aquele
não é o espaço dos Los 3 Amigos. O espaço de Los 3
Amigos é o espaço para grandes histórias, histórias
longas, uma saga. Como a gente tem um roteiro…
F.B.:
Vocês estão juntos há quanto anos?
An: Eu conheço o Laerte há 25 anos. Na verdade,
eu e o Laerte somos da primeira geração de cartunistas
de São Paulo, influenciados pelo "Pasquim",
o Caruso… Agora, os Los 3 Amigos existem desde 86.
P.D.:
A melhor maneira de trabalhar é a formação de quadrilhas?
La:
A melhor maneira de trabalhar , pelo menos no humor
, é a formação de quadrilha. A gente está vendo
o exemplo dos Cassetas e tal. Se bem que eu sou
um cara bastante individualista , gosto de trabalhar
sozinho.
F.B.:
Como é que vocês fazem para manter essa camaradagem?
Ad: Sai cacete pra caralho! Mas são todos uns doces.
Quando o Laerte e o Angeli vão lá na minha casa,
recebo eles com café. É maravilhoso, não é?!
La: Músicos têm que obrigatoriamente trabalhar coletivamente.
Cineastas, gente de teatro, tem que trabalhar coletivamente.
A.C.:
Gangue, quadrilha também.
An: O que eu acho é o seguinte: como cartunista,
tenho minhas deficiências, o Laerte tem as dele,
o Adão, o Glauco.... E quando a gente se junta,
um supre as deficiências do outro. Aí eu dou o mote
de uma idéia, o Laerte pega e debulha. O Adão dá
o final e o Glauco vem e acrescenta uma frase. É
nessa troca que se processa a coisa. Agora, tem
muita sacanagem entre um e outro. A gente fode com
o Laerte, o Laerte fode com o Adão…
J.S.:
Vocês tiveram revistas com longas histórias, uma
coisa bem autoral mesmo. Vocês pretendem retomar
isso?
An:
Lógico! Acontece que tem uma coisa grave que aconteceu.
O mercado de quadrinhos nunca existiu no Brasil.
Com as nossas revistas o mercado começou a se formar
e começou a surgir outras revistas de outros grupos.
Aí veio o Plano Collor e o mercado foi a zero. A
minha revista antes do Plano Collor estava vendendo
60, 70 mil exemplares, no número seguinte ao plano,
vendeu oito mil. A partir daí, se recuperar do susto
foi muito difícil. Acho que hoje existem outras
linguagens. Por exemplo, eu estou fazendo uma novela
da Rê Bordosa para a Internet…
A.C.:Conta
da novela.
An:
Aí é que tá… Tudo que posso fazer com a Rê Bordosa
agora é em cima do mito que ela virou. Por exemplo
nesta novela é sobre um cara que vai acessar a Internet
lá na Itália, na divisa com a Eslovênia. Ali, por
um motivo que eu não vou contar agora se não o Caio
Túlio vai ficar muito puto comigo, ela aparece virtualmente
para o cara, sai do computador e vai para o quarto
dele e ai vem uma história toda. Agora tudo isso
é encima do mito da Rê Bordosa, não é tanto encima
da personagem, daquele dia-a-dia do cotidiano.
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J.S.:
Bom, o mercado voltou a melhorar, pensa-se isso pelo
menos… Vocês pensam em retomar projetos individuais?
An:
Eu não penso em retomar uma coisa minha. Quando fiz
a "Chiclete com Banana" peguei um gosto
pela edição. A "Chiclete com Banana" começou
como uma coisa só minha e com o tempo fui incorporando
gente. Com isso comecei a ter que editar a revista.
Não só colocar uma história atrás da outra, mas ser
o editorialista, o copy-desk, o diagramador, o editor
de arte… Comecei a fazer tudo isso com uma equipe
por trás, mas comandando o negócio e com tesão. Então
chegou o momento que, na hora de desenhar eu pensava:
"puta, que merda, vou ter que desenhar!"
Porque eu estava gostando de editar.
P.D.:
O Crumb, afinal de contas, é o pai de todos, fura-bolo,
mata piolho?
An:
O Crumb é o seguinte: não existe um quadrinista no
mundo que tenha abaixo de cinqüenta anos que não viu
o Crumb na hora de começar uma história ou em pensar
em começar quadrinhos. Mesmo que o começo, o trabalho
central desse cara não tenha nada a ver com o Crumb.
O Crumb é uma bússola, eu acho que é um cara que todo
mundo olhou de alguma forma, confere Laerte?
La: É verdade! O que foi o desenho francês para a
geração do Ziraldo, Fortuna, Jaguar, Millôr, foi o
Crumb para a gente. O que o desenho francês teve de
influência na geração do "Pif-Paf", depois
no "Pasquim", uma coisa super brasileira
completamente idealizada aqui.
P.D.:
Angeli , quando você faz os seus editoriais e mostra
a sua cara, eu vejo a cara do Crumb direto.
An: É uma influência.
A coisa do Crumb de ser tarado, de montar nas costas das mulheres e
abrir a boca na hora que transa. Ele tem uma forma de ilustrar a coisa
que leva todo mundo a comentar: "Mas esse cara é um tarado,
machista". Não é machista. Ele está simplesmente se usando para
mostrar o que é o mundo, o lado machista do homem.
Muita gente me pergunta: "Porque não existe mulheres
humoristas?" O Humor é uma forma de defesa para os homens desde o
inicio do cartunismo. Foram os homens é que saíram para as ruas, foram
os homens que precisaram se defender, os homens que precisaram criar
formas de defesas e as mulheres ficaram guardadas. Então, hoje em dia
começa a surgir mulheres humoristas, porque mudou a evolução da
mulher.
J.S.:
Cite uma.
An: Mulheres fazendo texto de teatro, mulheres escrevendo...
Desculpa eu não conheço nenhuma. Têm cartunistas
surgindo que não são conhecidas ainda. Agora, você
vê, por que os gays tem um humor afiadíssimo? Porque
eles são atacados pra caramba. Eles desenvolveram
uma forma de defesa através do humor, então você
não passa impune na frente de um gay, ele vem e
te fode.
J.S.:Falando
nisso, é uma pergunta que você já deve ter ouvido
várias vezes, mas todo mundo que via Rock &
Hudson perguntava se o cara que faz....
Ad:
Eu não sou viado!
An: Ele colabora com uma revista gay…
Ad: Antes de criar o Rock & Hudson eu pensei
em criar dois gaúchos viados — é porque eu queria
morrer é obvio, né! Mas aí, pensei, se eu criar
dois gaúchos viados o pessoal só vai ler no Rio
Grande do Sul. Então pensei em criar dois cowboys
gays pra ficar mais universal. É isso só, não há
nada além disso.
An: Agora ,quando eu vou fazer o Nanico é lógico
que eu tenho que pensar como gay. Se eu estou fazendo
o Nanico com o Meia-Oito, pra fazer uma piada, tenho
que pensar como um gay que está louco pra sentar
no colo de um macho faz nessa hora…
Ad: Que nem eu! Que nem eu! (risos)
J.S.:
A gente estava falando do Crumb, que é o humor que
influenciou vocês. E hoje, vocês influenciam as
pessoas?
An:
O Adão é um exemplo da influência do nosso trabalho.
Não só ele, outros caras até, de Porto Alegre, de
Belo Horizonte... Acho que, às vezes, não é só no
traço. Você percebe a pessoa indo por caminhos que
você abriu . Assim, até o jeito de formatar certas
idéias e tal. Agora, entre nós — entre o Glauco,
Laerte, Angeli e principalmente depois, o Adão,
existe uma troca de influências fudida. Eu lembro
quando o Glauco surgiu… Eu e o Laerte viemos de
uma outra turma. Viemos de uma turma mais de participação
política. Aí surgiu o Glauco com um humor completamente
descompromissado, o humor pelo humor. Lembro que
a gente quase batia palma quando ele surgiu. Eu
sinto no meu trabalho a influência do Glauco, não
gráfica, mas no conceito da coisa. Também vejo que
o meu trabalho influencia o Laerte e vice e versa.
La: O Glauco fez uma coisa engraçada, uma espécie
de sanduíche com a influência do Henfil. O Henfil
era uma influência, mais experiente tal e coisa.
Nós éramos os garotos do Henfil e o Glauco foi uma
influência muito semelhante, muito sintonizada com
o Henfil, e a gente meio que se pegou no meio desse
sanduíche.
F.B.:
O Glauco é tarado na vida real?
An: É, é tarado. O Glauco é o seguinte: quando bebia e gostava do
babado, o Glauco era bastante tarado. Atualmente o Glauco é um cara
bastante sossegado, até mais do que devia. O Glauco é um cara bastante
comedido hoje em dia, o que até irrita. Mas o Glauco sempre foi um cara
da noite, um cachorro perdido da noite.
J.S.:
Vocês três escreveram para a "TV Colosso",
que era um programa infantil da Globo. Como foi?
An: Teve coisas engraçadas. Anos depois do
programa ter acabado, eu estava conversando com o Laerte e falei sobre
uma mina que tinha feito uma boqueba pra mim. Aí o Laerte, que tinha
sido redator-chefe da "TV Colosso", perguntou o que era
boqueba. Boqueba, pra quem não sabe, é chupada. Ele falou: "Pô!
Você escreveu uma história falando de boqueba!" Era uma história
inteira com os cachorros na ambulância falando "fazer um boqueba,
o boqueba não-sei-o-quê". O redator chefe deixou passar! Ninguém
entendeu. Quer dizer, a mina que fez boqueba pra mim entendeu…
Ad: O que eu gosto no Laerte éque ele é um cara que convence pelo
humor. É o mais caretinha, mas quando você olha no fundo, bem no fundo
dos olhos do Laerte, o cara é doido, cara! (risos)
An: O legal de andar com o Adão é que a gente escuta coisas
inesperadas.
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