Revista Sexy, edição 219, março de 1998

Faltam 79 dias para o início do carnaval

Entrevista na revista Sexy

No sentido horário: Angeli, Adão, Laerte e a caricatura de GlaucoAngeli, Laerte, Glauco e Adão — assim como os Três Mosqueteiros, Los3Amigos são, na verdade, quatro. A revista SEXY reuniu os implacáveis Angel Villa, Laertón e Adôn para uma conversa em que rolou humor, política, sexo, o misticismo do Glauquito e, é claro, muita sacanagem. Veja a transcrição:

Eles são uma espécie de Rolling Stones brasileiros do humor. Se juntar o tempo que se conhecem — só Angeli e Laerte dá uns 25 anos — e os projetos que fizeram, fazem e farão em conjunto já justificaria a comparação. Também não são muito diferentes dos personagens que criaram inspirados na comédia “Três Amigos”, dirigida por John Landis em 86, mesmo ano em que surgiu o trio brasileiro. Já sabíamos que não iria ser fácil reuní-los. Primeiro porque eles vivem ocupados com tiras para jornal (os quatro trabalham para a “Folha de S. Paulo”), colaborações para revistas, publicidade, roteiros para TV e outra série de atividades . Segundo porque os amigos são pirados mesmo. Tente marcar encontro com Angeli, Laerte, Glauco e Adão. Sair, até sai, mas nunca será, assim, de primeira. Você também nunca terá os quatro juntos. Reza a lenda que trata-se de medida de segurança, ou charme, algo assim. A verdade é que conseguimos sentar pelo menos três dos quatro ao redor de uma mesa: Angel Villa, Laertón e Adón. Glauquito, o mais místico, estava no Acre, onde seguia rigorosamente os preceitos do Santo Daime, do qual é fervoroso adepto há anos. Tudo bem, eles são Los 3 mesmo…A superelétrica (ou hiperativa?) Alicinha Cavalcanti acompanhada da elegante Francisca Botelho — uma artista que desenha jóias maravilhosas, estava presenta para nos auxiliar na entrevista. Ledo engano se achamos que Alicinha se limitaria ao papel de convidada. Em empatia automática com Los Amigos, ela simplesmente dominou a mesa e roubou a cena. Não houve outro jeito senão ajudá-la a entrevistá-los. ¡Hay, Caramba!

Palmério Dória: Angeli , todo mundo sabe que você fez o Bob Cuspe inspirado no Gastão Comunicador, do Jaguar. Vocês chupam sempre?
Angeli : Bom, na verdade eu não me baseei só no Gastão, o Vomitador .Me baseei em vários personagens, pessoas, situações e tal, mas o Gastão comunicador é uma fonte de inspiração. Aliás, o Jaguar é uma fonte de inspiração. Eu sempre, desde moleque, me baseei muito no trabalho do Jaguar. Tem momentos em que estou desenhando e acho que é um desenho do Jaguar que estou fazendo. E o Boby Cuspe tem uma parte do Gastão, mas vai além dele.
Laerte: O Jaguar é só um dos que eu chupei.
AN: O Laerte chupou pra caralho. Ele chupa sempre.
Adão: Eu chupo, por que senão o trabalho não sai legal.

Alicinha Cavalcante: Vocês criam juntos, não é uma coisa individual, cada um aparece lá com sua charge. Explica isso.
La: Fazemos pelo sistema antigo, a gente se reúne, aí pinta uma idéia e a gente produz.

A.C.: E cada um assina. Mas vocês fazem todo o trabalho em conjunto?
LA: Não adianta você querer fazer um desenho se o Glauco não pode fazer um desenho.

An: Ele nunca pode. (risos)
Ad: O Laerte faz pra ele. O Laerte faz os desenhos com os bonecos do Glauco, melhor que o Glauco.

P.D.: Não é à toa que o Glauco não está aqui…
An:
Vamos ser justos com o Glauco. O “Los 3 Amigos” é feito a seis, oito mãos. O Glauco sempre foi um cara não tão presente quanto os outros. O Glauco tem uma vida muito lotada em volta da opção dele pelo Daime. Isso dificulta um pouco o trânsito dele dentro dos “Los 3 Amigos”.

AngeliP.D.: Ele não tentou corromper vocês, não?
Ad: Só quando está sozinho com um de nós. Tipo, se ele vem falar e estou eu e o Angeli, ele não fala sobre o Daime. Tem que ser individual. Ele pega no elevador e fala, “esse ano a gente fez um trabalho lindo…”

A.C.: Aí ele vem lá e manda putaria na “Dona Marta”… Entendi. É um antagonismo. A não ser que aquilo lá no Acre seja …
La:
Ele diz que não é incompatível.
Ad: É, mas ele fica subindo pelas paredes…

P.D.: Mas as moças aqui na mesa estão em uma onda de nostalgia da Rê Bordosa.
A.C.: Você encheu o saco da Rê Bordosa?

An: Na verdade quando eu matei a Rê Bordosa, Eu estava de saco cheio .Era um personagem muito pesado para mim, porque onde eu ia tinha que responder pelo personagem, eu tinha que explicar o personagem. Aconteciam coisas estranhas, pessoas que não tinham uma vida próxima da Rê Bordosa e falavam assim: “eu sou a Rê Bordosa”. Eu via que aquilo era uma mentira, então…

A.C.: Sim, mas você se livrou disto?
An:
Não, não me livrei, por incrível que pareça, porque até hoje tem gente que coloca a cabeça fora do ônibus na Teodoro Sampaio e fala: “filho da puta! você matou a Rê Bordosa!” Até hoje…

P.D.: Adão, na história da Aline, do Oto e do Pedro, tem muito de autobiografia? Você gosta de uma surubinha destas?
Ad:
A única vez que eu pratiquei sexo a três, foi com um amigo meu (risos). Não, não, não. Era eu, uma japonesa e um amigo que chamava Oto. Mas eu não consegui transar. A gente ficava alí e eu olhava pro Oto parecido com o Woody Allen. Eu via a fuça dele e ficava rindo.

A.C.: Tem algum personagem que vocês têm inveja de não ter criado?
An:
Ah! Eu gostaria muito de ter criado o Amigo da Onça, que é um personagem que paira sobre o meu trabalho.

AngeliA.C.: Que coisa modesta! E você, Adão?
Ad:
Não sei. Eu gostaria de ter matado o Garfield, primeira coisa…

A.C.: Mas existe algum que você ache muito bacana e gostaria de ter feito?
Ad:
Daqui a pouco eu vou lembrar de alguma coisa, aí vocês juntem no texto.

A.C.: Laerte?
La:
Um dos que eu acho mais bacana é o Calvin, mas eu não sei se gostaria de ter criado, porque isso envolveria fazer as histórias dele também, e eu não sei, acho muito típico do cara, do Bill Watterson eu não me sinto a altura do Bill Watterson.

P.D.: Por falar em Amigo da Onça, quem é o grande amigo da onça no país hoje?
Ad:
Puta, tem um milhão!

P.D. : Há preferências?
An:
O amigo da onça é o Maluf, no caso. Ele pegou o Pitta e o colocou nessa daí.
La: Eu acho que o Maluf é um grande amigo da onça, mas o FHC também está conseguindo ser.

LaerteA.C.: Onde é que você busca a inspiração para os Piratas do Tietê?
La:
Eu gosto muito de misturar. Esse negócio, um barato de fantasia — fadas , palhaços, piratas, gente com cabeça de bicho — com um cenário, digamos, meio realista. Não chega a ser uma necessidade de ter um troço super original, é mais uma… Eu gosto de mexer com os estereótipos, as figuras…

A.C.: Mas tem uma conotação misturada com pirataria como teria de fada?
La:
Tem, sim. Por que a gente vive no meio de uma grande pirataria da sociedade brasileira, da economia brasileira.

A.C.: Tem um lado todo sério aí?
La:
É, mas normalmente esse processo vai apresentando surpresas no decorrer do tempo, e essa foi uma que apareceu logo no início. Quer dizer, uma sintonia entre os personagens e a coisa real mesmo. Todo mundo pirateia. O fato de os caras piratearem, roubarem, saquearem e depois venderem, traficarem escravo e tal, parece que é uma linguagem muito conhecida no Brasil, não surpreende ninguém.

A.C.: E a coisa do Tietê para caracterizar São Paulo, para ser uma coisa paulista, vocês são paulistas, os três?
Todos:
Não, o Adão é gaúcho.
Ad: Gaúcho do interior do Rio Grande do Sul.

J.S.: O trabalho do Laerte tem uma característica muito paulistana. Você sempre quis fazer tipo uma crônica da cidade?
La:
Não, eu preferia Barcelona, mas é que eu nasci aqui. Eu não gosto de São Paulo, odeio São Paulo, acho uma porcaria de cidade. Assim que eu puder, me mando.

A.C.: Você não gosta mesmo de São Paulo?
Ad:
São Paulo é uma coisa meio estranha. Fico no apartamento o dia inteiro, não tenho que pegar trânsito, mas o cara que falar que São Paulo é legal deve ser meio imbecil. É um cara que acha legal a administração do Maluf e do Pitta.
An: Ô Adão, você esta misturando aí. Má administração toda cidade está tendo.

P.D.: Laerte, você tem um gato e uma gata que gostam de sacanagem, umas gracinhas… Quais são suas verdadeiras relações com os gatos? Você é a favor do sexo animal?
La:
Sou, tanto é que não vou castrar meu gato.

J.S..: Angeli , me lembro que numa certa época, você chegou a tornar pública uma declaração de que não faria mais charge política. Anos depois você se transformou em um dos caras que mais publicou charge na página 2 da “Folha”, que é predominantemente política. Por que a decisão na época e o que fez você voltar à charge política?
An:
Bom! Por que na época, 1982, quando eu deixei de fazer, o presidente era o Figueiredo. Todas as charges políticas tinham uma conotação de charge de guerrilha, e eu acho que a charge estava ficando bastante burra. Ela estava ficando cheia de muletas e de fórmulas prontas. Todo mundo usava as mesmas fórmulas. Eu achei que aquilo estava emburrecendo o humor, emburrecendo os humoristas e tudo mais. Talvez tenha sido um pouco violento na hora de fazer esse ataque, mas eu não via futuro na charge. Ela estava se transformando em simples caricatura e isso não me agradava. Muitas vezes achei que a charge estava servindo apenas para os “chargeáveis”. O Delfim Neto abria o jornal e falava assim: “olha eu aqui, tão gordo”.
Ad: O Delfim Neto tem na casa dele uma galeria de charges.
An: Aí fui fazer quadrinhos, humor de comportamento e tal. O Brasil mudou, a situação política mudou. A gente ainda tem seqüelas, mas as autoridades são outras. Mesmo aquelas que vieram da ditadura têm que se comportar de uma outra forma. Então, quando a “Folha” me convidou novamente — por que aquele espaço da charge na página 2 fui eu quem inaugurou, antes era um espaço de fotos de agências de notícias, uma charge americana e tal. Eu oficializei aquele espaço, e quando retomei, pensei: “vou desdizer tudo o que disse”.

J.S.: Quando é que você retomou?
An:
Em 93. Fiz de 73 a 83. Depois fiquei dez anos fora e voltei a fazer. Quando retornei, retomei alguns desafios que havia criado. Uma coisa que sempre me encantou no humor, principalmente nos anos cinqüenta, do Carlos Estevão do Amigo da Onça, era o cidadão comum sendo a figura principal. Comecei a reparar que os chargistas tinham esquecido isso. Eles estavam fazendo coisas sobre o humor de gabinete. Pensei, “vou retomar isso e vou colocar tudo que aprendi no humor de comportamento fazendo quadrinhos na charge”. Agora, é uma armadilha essa situação, porque o tempo, o relógio batendo, o que o jornal te propõe como notícia, com tudo isso você acaba caindo no humor de gabinete mesmo. Mas é uma coisa que eu me policio para não fazer só isso. Então, vira e mexe, estou colocando a opinião do cidadão comum, estou colocando fórmulas de charges que até então se usava só em quadrinhos.

P.D.: Você subdivide o desenho com muita frequência?
An:
Exatamente. Eu estou dando opinião muito pessoal. Em alguns casos me coloco na charges conversando com o Maluf. Tenho charge conversando com o Maluf, conversando com o Antonio Carlos Magalhães. Aí dou minha opinião e ele rebate com a dele. Agora, nem sempre é possível fazer isso. Jornal é ingrato — aquele relógio ali em cima batendo… você fala, “meu Deus! vou apelar porque hoje a gente tem que fechar”, mas é uma regra que me imponho de não ficar só nessa, não ficar só fazendo caricatura. Já que não sou um caricaturista, não sou um Caruso, cujo centro do trabalho é a caricatura. Pego mais o comportamento do político do que até a própria cara dele.

P.D.: Você conversaria com o Maluf mesmo?
An:
Não, não tenho a menor vontade.

P.D.: Não, não por uma questão de vontade…
An:
Não, não conversaria.

A.C.: Laerte, na revista dos Piratas você fazia longas histórias com caráter de crônica. Você continua fazendo isso, ou parou?
La:
Parei de fazer longas histórias por uma questão de falta de espaço. Em tiras não dá pra fazer. É muito difícil, por que tem muito leitor que pega no meio da semana. Espaços para histórias como “Modest Blaise”, como “Tarzan”, histórias continuadas assim não existem mais no jornalismo moderno. O tipo de leitor é outro, ele zapeia, ele passa para a internet, passa para outros jornais, ele está sempre assim.

A.C.: Tem previsão de sair uma revista?
An:
Temos um roteiraço inédito para um álbum de Los 3 Amigos que é uma coisa próxima dos bons momentos do Dias Gomes. É aquela coisa de montar uma cidade onde até o jornaleiro tem personalidade…
A gente tem afiado esse esboço, está praticamente montado. Agora a gente trabalha muito…

A.C.: Quem é que trabalha mais, quem é que fica ali mais atento, qual é o horário de trabalho?
An:
Acho que eu trabalho mais.
Ad: Não, o Angeli chora mais. O Laerte acho que trabalha muito também, mas o Angeli adora chorar. Você liga e ele adora ficar chorando.

A.C.: Vocês trabalham durante o dia?
An:
Eu, por obrigação, por causa do jornal. Mas gosto mesmo é de trabalhar à noite. À noite é quando me preparo pro dia seguinte, armo as idéias.

P.D.: Mas a pergunta que está no ar desde a entrevista do Jaguar é: Quem comeu o Laerte?
Ad:
O Laerte não dá pra ninguém, não. O Laerte é um cara que esta acima disso.

A.C. : Deixa o Laerte responder isto.
An: (Para o Laerte)
Você lembra que estava eu, você, o Ziraldo, o Jaguar e tinha mais alguém, o Ailson, não sei… Perguntaram a maior vergonha de cada um, aí cada um contou. O Laerte soltou uma bomba atômica que deixou o Jaguar e o Ziraldo encucados durante um mês.
La: Essa história é privada, e foi contada numa roda de amigos, num bar.

A.C.: Mas se tornou pública, querido. Todo mundo já sabe.
An:
Eu acho que, para manter o charme do Laerte, isso tem que permanecer um mistério. Se ele deu, o problema é dele.

A.C.: Que amigo você tem, hem?! “Tem que ficar no mistério, se ele deu o problema é dele”.
P.D.: Aliás ,por falar em amigo, dizem que você é o mentor de Los 3 Amigos, ao que você respondeu certa vez que era compatível com a falta de opção. Que história é esta?
An:
Não sei! Eu sou o mentor? Não sou. Eu acho que eu aperto o botão de “start”, mas, aí, divide-se a responsabilidade….
Ad: Mas fui eu quem deu o sangue novo para…
An: Não precisa falar que tem hemorróidas não.(Risos)
La: Bom, hemorróidas eu tenho, eu posso falar…

P.D.: Mas existe aquela histórinha do velho cartunista…
An:
Sabe o que é? Tem uma brincadeira dentro do Los 3 Amigos em que cada um faz um papel. Eu sou o cafajeste latino e o Glauco é o atrapalhado, o viajante, o cara que atrapalha os planos de assalto e faz tudo errado, não aparece no momento do assalto porque esqueceu. Já o Laerte é o cara que tem algumas dúvidas sobre a sexualidade, é isso, né!? (Risos). Então, dentro do Los 3 Amigos, ele já foi dançarina de cabaré… Enquanto os Los 3 Amigos estavam colocando mulher amarrada em trilho de trem, estuprando as mulheres, o Laerte ia levar um papo antes do trem chegar, “Não, e tal, você gosta de música romântica e tal”. Ele é um cara mais sensível. O Laerte, entre nós, é o cara mais intelectual, o que mais sabe das coisas. Então, está propenso a estas coisas, né!? (Risos).

P.D.: O que me impressiona são duas coisa fantásticas no Laerte: ele conseguiu tornar engraçado a “Gazeta Mercantil” e o caderno de classificados da “Folha”, isso é magnifico!
J.S.: Como o Adão se tornou o quarto amigo?
Adão
An: Quando ele veio morar em São Paulo, estava na merda, aquela coisa e tal… A gente convidou o Adão para integrar os Los 3 Amigos. Agora, como personagem, acho que o personagem do Adão ainda não integrou completamente. Ele não mostrou exatamente o que ele é.
La: É porque o personagem do Adão é bonzinho, angelical.
Ad: É difícil. Os três já estavam lá fazendo um trabalho e então eu entro…
An: Agora tem uma coisa, já me disseram que depois da entrada do Adão, os Los 3 Amigos ficou com um certo jeito gay. (risos)

A.C.: Mas é característica gaúcha, “te rodeio tu de baja”. Acho que é difícil você entrar numa coisa que já está formada. Você entrar e formar um personagem muito rapidamente…
J.S.: Existe uma certa influência de Los 3 Amigos, tanto do Angeli, do Laerte e do Glauco no teu trabalho?
Ad:
Tem! Também tem uma influência do meu trabalho no trabalho deles, mas eles não vão falar isso, claro! (risos)
La: Eu admito, eu admito.
An: Mas tem essa coisa da personalidade de cada personagem. Agora nem tanto, mas teve um tempo em que a gente direcionava histórias para cada um deles. Tinha épocas que eu passava como a estrela principal da história, depois entrava o Laerte. Agora estamos trabalhando mais o bloco dos personagens.

P.D.: E a sua ida para o caderno teen da “Folha”?
An:
Os Los 3 Amigos surgiu na minha revista, “Chiclete com Banana”. Aí tiveram a idéia de fazer uma página com quadrinhos no caderno de variedades da “Folha” de segunda-feira e colocaram um monte de coisas lá. Coisas de cara que curte quadrinhos à distância, né! “Ah! Vamos colocar um quadrinho tradicional”, que era o “Crazy Cat”. Nada dava certo. Não emplacou por que não eram coisas que falavam ao pau. Aí veio a crise do papel e eles começaram a cortar páginas. Sobrou os Los 3 Amigos, que foi para o “FolhaTeen”. Agora, aquele não é o espaço dos Los 3 Amigos. O espaço de Los 3 Amigos é o espaço para grandes histórias, histórias longas, uma saga. Como a gente tem um roteiro…

F.B.: Vocês estão juntos há quanto anos?
An:
Eu conheço o Laerte há 25 anos. Na verdade, eu e o Laerte somos da primeira geração de cartunistas de São Paulo, influenciados pelo “Pasquim”, o Caruso… Agora, os Los 3 Amigos existem desde 86.

P.D.: A melhor maneira de trabalhar é a formação de quadrilhas?
La:
A melhor maneira de trabalhar , pelo menos no humor , é a formação de quadrilha. A gente está vendo o exemplo dos Cassetas e tal. Se bem que eu sou um cara bastante individualista , gosto de trabalhar sozinho.

F.B.: Como é que vocês fazem para manter essa camaradagem?
Ad:
Sai cacete pra caralho! Mas são todos uns doces. Quando o Laerte e o Angeli vão lá na minha casa, recebo eles com café. É maravilhoso, não é?!
La: Músicos têm que obrigatoriamente trabalhar coletivamente. Cineastas, gente de teatro, tem que trabalhar coletivamente.

A.C.: Gangue, quadrilha também.
An:
O que eu acho é o seguinte: como cartunista, tenho minhas deficiências, o Laerte tem as dele, o Adão, o Glauco…. E quando a gente se junta, um supre as deficiências do outro. Aí eu dou o mote de uma idéia, o Laerte pega e debulha. O Adão dá o final e o Glauco vem e acrescenta uma frase. É nessa troca que se processa a coisa. Agora, tem muita sacanagem entre um e outro. A gente fode com o Laerte, o Laerte fode com o Adão…

J.S.: Vocês tiveram revistas com longas histórias, uma coisa bem autoral mesmo. Vocês pretendem retomar isso?
An:
Lógico! Acontece que tem uma coisa grave que aconteceu. O mercado de quadrinhos nunca existiu no Brasil. Com as nossas revistas o mercado começou a se formar e começou a surgir outras revistas de outros grupos. Aí veio o Plano Collor e o mercado foi a zero. A minha revista antes do Plano Collor estava vendendo 60, 70 mil exemplares, no número seguinte ao plano, vendeu oito mil. A partir daí, se recuperar do susto foi muito difícil. Acho que hoje existem outras linguagens. Por exemplo, eu estou fazendo uma novela da Rê Bordosa para a Internet…

A.C.:Conta da novela.
An:
Aí é que tá… Tudo que posso fazer com a Rê Bordosa agora é em cima do mito que ela virou. Por exemplo nesta novela é sobre um cara que vai acessar a Internet lá na Itália, na divisa com a Eslovênia. Ali, por um motivo que eu não vou contar agora se não o Caio Túlio vai ficar muito puto comigo, ela aparece virtualmente para o cara, sai do computador e vai para o quarto dele e ai vem uma história toda. Agora tudo isso é encima do mito da Rê Bordosa, não é tanto encima da personagem, daquele dia-a-dia do cotidiano.

J.S.: Bom, o mercado voltou a melhorar, pensa-se isso pelo menos… Vocês pensam em retomar projetos individuais?
An:
Eu não penso em retomar uma coisa minha. Quando fiz a “Chiclete com Banana” peguei um gosto pela edição. A “Chiclete com Banana” começou como uma coisa só minha e com o tempo fui incorporando gente. Com isso comecei a ter que editar a revista. Não só colocar uma história atrás da outra, mas ser o editorialista, o copy-desk, o diagramador, o editor de arte… Comecei a fazer tudo isso com uma equipe por trás, mas comandando o negócio e com tesão. Então chegou o momento que, na hora de desenhar eu pensava: “puta, que merda, vou ter que desenhar!” Porque eu estava gostando de editar.

P.D.: O Crumb, afinal de contas, é o pai de todos, fura-bolo, mata piolho?
An:
O Crumb é o seguinte: não existe um quadrinista no mundo que tenha abaixo de cinqüenta anos que não viu o Crumb na hora de começar uma história ou em pensar em começar quadrinhos. Mesmo que o começo, o trabalho central desse cara não tenha nada a ver com o Crumb. O Crumb é uma bússola, eu acho que é um cara que todo mundo olhou de alguma forma, confere Laerte?
La: É verdade! O que foi o desenho francês para a geração do Ziraldo, Fortuna, Jaguar, Millôr, foi o Crumb para a gente. O que o desenho francês teve de influência na geração do “Pif-Paf”, depois no “Pasquim”, uma coisa super brasileira completamente idealizada aqui.

P.D.: Angeli , quando você faz os seus editoriais e mostra a sua cara, eu vejo a cara do Crumb direto.
An:
É uma influência. A coisa do Crumb de ser tarado, de montar nas costas das mulheres e abrir a boca na hora que transa. Ele tem uma forma de ilustrar a coisa que leva todo mundo a comentar: “Mas esse cara é um tarado, machista”. Não é machista. Ele está simplesmente se usando para mostrar o que é o mundo, o lado machista do homem.
Muita gente me pergunta: “Porque não existe mulheres humoristas?” O Humor é uma forma de defesa para os homens desde o inicio do cartunismo. Foram os homens é que saíram para as ruas, foram os homens que precisaram se defender, os homens que precisaram criar formas de defesas e as mulheres ficaram guardadas. Então, hoje em dia começa a surgir mulheres humoristas, porque mudou a evolução da mulher.

J.S.: Cite uma.
An:
Mulheres fazendo texto de teatro, mulheres escrevendo… Desculpa eu não conheço nenhuma. Têm cartunistas surgindo que não são conhecidas ainda. Agora, você vê, por que os gays tem um humor afiadíssimo? Porque eles são atacados pra caramba. Eles desenvolveram uma forma de defesa através do humor, então você não passa impune na frente de um gay, ele vem e te fode.

J.S.:Falando nisso, é uma pergunta que você já deve ter ouvido várias vezes, mas todo mundo que via Rock & Hudson perguntava se o cara que faz….
Ad:
Eu não sou viado!
An: Ele colabora com uma revista gay…
Ad: Antes de criar o Rock & Hudson eu pensei em criar dois gaúchos viados — é porque eu queria morrer é obvio, né! Mas aí, pensei, se eu criar dois gaúchos viados o pessoal só vai ler no Rio Grande do Sul. Então pensei em criar dois cowboys gays pra ficar mais universal. É isso só, não há nada além disso.
An: Agora ,quando eu vou fazer o Nanico é lógico que eu tenho que pensar como gay. Se eu estou fazendo o Nanico com o Meia-Oito, pra fazer uma piada, tenho que pensar como um gay que está louco pra sentar no colo de um macho faz nessa hora…
Ad: Que nem eu! Que nem eu! (risos)

J.S.: A gente estava falando do Crumb, que é o humor que influenciou vocês. E hoje, vocês influenciam as pessoas?
An:
O Adão é um exemplo da influência do nosso trabalho. Não só ele, outros caras até, de Porto Alegre, de Belo Horizonte… Acho que, às vezes, não é só no traço. Você percebe a pessoa indo por caminhos que você abriu . Assim, até o jeito de formatar certas idéias e tal. Agora, entre nós — entre o Glauco, Laerte, Angeli e principalmente depois, o Adão, existe uma troca de influências fudida. Eu lembro quando o Glauco surgiu… Eu e o Laerte viemos de uma outra turma. Viemos de uma turma mais de participação política. Aí surgiu o Glauco com um humor completamente descompromissado, o humor pelo humor. Lembro que a gente quase batia palma quando ele surgiu. Eu sinto no meu trabalho a influência do Glauco, não gráfica, mas no conceito da coisa. Também vejo que o meu trabalho influencia o Laerte e vice e versa.
La: O Glauco fez uma coisa engraçada, uma espécie de sanduíche com a influência do Henfil. O Henfil era uma influência, mais experiente tal e coisa. Nós éramos os garotos do Henfil e o Glauco foi uma influência muito semelhante, muito sintonizada com o Henfil, e a gente meio que se pegou no meio desse sanduíche.

F.B.: O Glauco é tarado na vida real?
An:
É, é tarado. O Glauco é o seguinte: quando bebia e gostava do babado, o Glauco era bastante tarado. Atualmente o Glauco é um cara bastante sossegado, até mais do que devia. O Glauco é um cara bastante comedido hoje em dia, o que até irrita. Mas o Glauco sempre foi um cara da noite, um cachorro perdido da noite.

J.S.: Vocês três escreveram para a “TV Colosso”, que era um programa infantil da Globo. Como foi?
An: Teve coisas engraçadas. Anos depois do programa ter acabado, eu estava conversando com o Laerte e falei sobre uma mina que tinha feito uma boqueba pra mim. Aí o Laerte, que tinha sido redator-chefe da “TV Colosso”, perguntou o que era boqueba. Boqueba, pra quem não sabe, é chupada. Ele falou: “Pô! Você escreveu uma história falando de boqueba!” Era uma história inteira com os cachorros na ambulância falando “fazer um boqueba, o boqueba não-sei-o-quê”. O redator chefe deixou passar! Ninguém entendeu. Quer dizer, a mina que fez boqueba pra mim entendeu…
Ad: O que eu gosto no Laerte éque ele é um cara que convence pelo humor. É o mais caretinha, mas quando você olha no fundo, bem no fundo dos olhos do Laerte, o cara é doido, cara! (risos)
An: O legal de andar com o Adão é que a gente escuta coisas inesperadas.

Fonte: Revista Sexy, edição 219, março de 1998

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